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José Manuel Costa

José Manuel Costa

Sobre os discursos da sustentabilidade

22.04.10, José Manuel Costa

Excelente o suplemento de 32 páginas que o jornal Público dedica hoje ao Dia da Terra – e também o comentário de Ricardo Garcia, numa espécie de editorial a este suplemento, sobre as constantes metas de biodiversidade que estamos a falhar: “O mundo falhou, a Europa falhou, Portugal falhou. E agora?”, escreve o jornalista.

 

Retiro duas ideias do texto de Ricardo Garcia. Em primeiro lugar, o jornalista do Público refere que a História nos diz que é preciso “uma boa crise ambiental para que se ultrapasse a inacção”, mas que, “infelizmente, no caso da biodiversidade, a crise existe mas não se vê facilmente”.

 

Concordo e acrescento mais: escrevi ontem aqui que há dois anos foi o sistema económico que ruiu, há uma semana o mesmo aconteceu a parte do sistema de transportes. Acrescentei: “O que mais virá aí”?

 

Se o sistema económico se conseguiu semi-estabilizar, e o sistema de transportes para lá caminhará, mais cedo ou mais tarde, no caso de uma possível e cada vez mais provável crise ambiental as consequências seriam - serão!!! - imprevisíveis. Ou melhor, seriam previsivelmente catastróficas, ao ponto de não-retorno. O que acabaria por levar atrás os outros sistemas – económico, social, etc.

 

O segundo ponto que me chamou à atenção foi a questão das metas. Primeiro é a de 2010, que já falhámos, mais tarde a visão será para 2050 (com meta em 2020). Em 2020, digo agora eu, a meta passará para 2030 ou 2040, com visões para o final do século. Ora, o final século poderá ser tarde demais, como bem avisam os especialistas em alterações climáticas.

 

A verdade é que os anos vão passando e pouco se faz, de efectivo, para mudar mentalidades. Porque, basicamente, trata-se de uma questão de mudar mentalidades. Sei que não é fácil, mas é preciso que cada um de nós saiba que pode mesmo mudar o mundo com as acções do dia-a-dia. Isto, claro, tendo como ponto de partida uma estratégia mais alargada que inclua boas práticas governamentais e empresariais. Diz Ricardo Garcia que conceito de sustentabilidade é “tão prezado nos discursos quanto ignorado na prática”. É verdade – mas também já foi mais verdade).

 

Hoje não basta falar de sustentabilidade. As redes sociais juntaram-se aos jornalistas no escrutínio destas, muitas vezes, falsas campanhas verdes. É impossível ou muito difícil, hoje em dia, passar impune.

 

Como presidente do Grupo GCI tenho orgulho em projectos – reais – que temos desenvolvido na área da sustentabilidade, sobretudo desde que apostámos nela em força, em 2007. Projectos como o Green Project Awards, GPA Roadshow ou Green Fest e movimentos como o Menos Um Carro, que tiveram e terão uma continuidade, têm demonstrado que já há pessoas, marcas e empresas que conseguem perceber a verdadeira dimensão do palavrão “desenvolvimento sustentável” e colocar lado a lado os benefícios ambientais com os sociais e económicos.

 

Porque não podemos ser inconscientes ao ponto de não aliar a economia à sustentabilidade e biodiversidade, à luta contra a exclusão social ou pobreza. Aqui não há compartimentos estaques.

 

A sociedade é feita de relações de interdependência, a tal história da borboleta-que-bate-as-asas-e-que-provoca-um-acto-qualquer-no-outro-lado-do-planeta é um excelente exemplo.

 

Durante a sessão de apresentação do Green Project Awards, Fernando Nobre dizia que “o ambiente chegará, rapidamente, ao primeiro plano de importância da sociedade”. É verdade. E, se não for por nossa iniciativa, isso ser-nos-á imposto. Mas nem quero pensar nesta segunda hipótese…