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José Manuel Costa

José Manuel Costa

Alarme em Pequim (e não só)

24.08.10, José Manuel Costa

Quando se lê que um engarrafamento dura há já nove dias, como este de Pequim, a primeira tentação é pensar que há alguma coisa que não bate certo. Não seria, por exemplo, nove horas?

Quando, mais tarde, se confirma a notícia, então é a altura de parar para pensar.

A mobilidade, sabe-se há algum tempo, será uma dos temas mais importantes dos próximos anos, à medida em que a população global deixa as zonas rurais e se junta às cidades.

Este é um tema a que, de resto, que tenho dedicado bastante atenção neste blog. Projectos como o Menos Um Carro, o Green Project Awards ou o GPA Roadshow foram desenvolvidos, parcial ou integralmente, para ajudar a mudar a mentalidade que nós, portugueses, ainda demonstramos em relação a este – e outros – temas.

Os principais dados da equação já se sabem há alguns anos e não se alterarão muito. Em 2050 cerca de 80% da população europeia viverá numa cidade (dados das Nações Unidas). Como será o trânsito em Lisboa, Porto, Braga, Aveiro, Faro, Coimbra, entre outras grandes cidades, nessa data?

A 10 de Setembro, no Green Festival, poderemos ter algumas repostas a esta pergunta, durante a conferência do urbanista Jaime Lerner.

Lerner, recorde-se, revolucionou a cidade de Curitiba, dando-lhe uma nova matriz sustentável ao nível dos transportes públicos, dos espaços verdes e do tratamento de resíduos.

Será importante perceber, por isso, como a sua experiência poderá ser utilizada para melhor a nossa actual estratégia de mobilidade sustentável. Fiquemos atentos à conferência.

Certamente que, em Portugal, uma situação como esta – nove dias de engarrafamento – é impensável, mas o caos que já hoje temos nos nossos acessos às cidades é suficiente para pensarmos bem - e decidirmos ainda melhor - sobre qual o caminho a seguir.

A indústria automóvel tem trabalhado bem, apresentando modelos com menos emissões de CO2 e irá continuar a fazê-lo até que estas se reduzam por completo. Mas a questão da mobilidade, porém, não se alterará. O espaço não cresce, não haverá muitos mais lugares de estacionamento, e as horas no trânsito tenderão, assim, a aumentar.

A Reuters adiantou entretanto que o engarrafamento chinês - que tem 100 quilómetros - poderá durar mais um mês. Que este exemplo – distante mas real – coloque todo o mundo – que agora partilha a notícia, com um misto de incredulidade e gozo, nas redes sociais – de sobreaviso.

PS: Entretanto, e quando estava a publicar este texto, leio que um responsável da cidade de Pequim alertou que chegam 1.900 novos veículos por dia às ruas da cidade e que, se o parque automóvel continuar a crescer a este ritmo, dentro de cinco anos o trânsito na cidade poderá ficar bloqueado. Confirma-se: já soaram as sirenes de alarme em Pequim.